domingo, 4 outubro , 2026

Aumento da procura leva a desabastecimento de gás

Em uma semana normal, a venda de gás em botijões na pequena venda de Avelino Fogaça de Lima, em um condomínio residencial em Brasília, chegava a 120 botijões. Desde o início do isolamento social preventivo ao novo coronavírus (covid-19), Avelino notou aumento significativo dos pedidos. Segundo ele, preocupados com a escassez do produto, os moradores da região passaram a estocá-lo.

“O problema é que passei a receber, em vez de 70 botijões a cada leva, apenas 20. Isso preocupou ainda mais os moradores, que acabaram reforçando ainda mais os estoques”, disse Fogaça à Agência Brasil. Ele comercializa gás há 25 anos. “Agora, o que chega na loja é imediatamente vendido”, acrescenta.

De acordo com o presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liqüefeito de Petróleo (Sindigás), Sérgio Bandeira de Mello, houve um aumento “surpreendente e inesperado” na procura por botijões de gás, da ordem de 25% nos últimos 10 dias de março, comparado ao mesmo período do ano passado.

Efeitos momentâneos

De acordo com a entidade, a Petrobras não conseguiu responder com a velocidade adequada, gerando um atraso entre dois e três dias para as entregas de produto. “Não sabemos como será o comportamento do consumidor nos próximos dias, mas os efeitos dessa corrida são momentâneos em função de pressões bruscas da demanda”, avaliou o presidente do Sindigás.

Mello disse que o atraso no abastecimento foi mais sentido em São Paulo. “Um dos motivos foi a interrupção do funcionamento em um duto da Petrobras entre Santos e Mauá. Porém, a previsão de reinício da operação desse duto, que estava paralisado para manutenção, é hoje (6) ainda. A expectativa das distribuidoras é começar a receber carga de gás por meio dessa tubulação entre o fim do dia de hoje e amanhã (7)”.

As dificuldades para abastecimento foram confirmadas pelo presidente do Sindicato das Empresas Transportadoras e Revendedoras de Gás (Sindvargas), Sérgio Costa. Segundo ele, “os caminhões de revendedores ficam na fila em frente às distribuidoras engarrafadoras até cinco dias esperando o produto para carregar”, informou o presidente do sindicato.

O Sindigás informou que as equipes das empresas distribuidoras e revendas estão trabalhando com plena capacidade. “Portanto, não há razão para estocar GLP (gás de cozinha)”, informou o Sindigás, e fez uma apelo para que o consumidor “compre de forma consciente, de modo que não falte gás para as famílias que precisam do produto para consumo imediato”.

Petrobras

À Agência Brasil a Petrobras alegou que, com relação ao gás, não há falta do produto, mesmo com a população tendo aumentado o consumo, por medo de desabastecimento. A estatal informou que, em março, as vendas de gás de cozinha (GLP) totalizaram 615 mil toneladas, 8 mil toneladas acima da quantidade inicialmente acordada com as distribuidoras.

Ainda segundo a Petrobras, houve, recentemente, queda de demanda por outros combustíveis – gasolina, diesel e querosene de aviação. Com isso, o processamento das refinarias foi reduzido e, no caso do GLP, a redução da produção será compensada por importação do produto. “As entregas estão garantidas”, afirma a estatal.

Por telefone, a assessoria da estatal informou ainda que os botijões vazios não estão voltando às distribuidoras, o que tem prejudicado o ciclo do produto. “Por esse motivo, nossa recomendação é a de que não se estoque botijões em casa”, alertou.

Sindicatos

O Sindigás e o Sindvargas contestam a justificativa apresentada pela Petrobras para a falta de botijões. “Não há falta de botijões. A maior prova de que há botijões disponíveis são as longas filas de carretas formadas há dias, lotadas de botijões vazios, aguardando a chegada de produto”, disse o presidente do Sindigás.

“Não procede essa argumentação de falta de botijões. Basta ir aos centros de troca de vasilhames para ver. Há grande quantidade de vasilhames tanto nas distribuidoras como nas revendas”, garante o presidente do Sindvargas.

Sérgio Costa, do Sindvargas, disse que um levantamento obtido por meio de um grupo integrado por sindicatos de todo o país, aponta as unidades federativas que se encontram em situação mais crítica – não por falta de botijões, mas por desabastecimento – são Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Distrito Federal.

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